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NFJ#171 (09/02/2018)
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Olá, amigos! A newsletter tá longa hoje. Vocês terão bastante leitura para o feriadão de Carnaval! Não precisam me agradecer.

Queria ir direto ao ponto, mas vale fazer ao menos o registro de um momento histórico: terminei a edição enquanto as Coreias desfilavam unidas na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno. Agora sim, vamos à NFJ.
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Índice

Temos conteúdo exclusivo hoje, um papo com Sérgio D’Ávila, editor-executivo da Folha de S. Paulo, sobre a notícia mais importante desta semana para nós:  a decisão do jornal de parar de atualizar sua página no Facebook. 

Folha declara guerra ao Facebook


A Folha de S. Paulo anunciou ontem que deixará de atualizar sua página no Facebook. A mudança é uma reação ao comunicado de Mark Zuckerberg, em janeiro, sobre privilegiar conteúdos de amigos (tema da última NFJ).

Conversei com Sérgio D'Ávila, editor-executivo da Folha, e, para ele, as empresas jornalísticas foram "virtualmente banidas da interação com os usuários da rede".

 
Parte da postura da Folha vai ao encontro do que falávamos na sexta-feira passada: propagação de informações falsas e criação de bolhas ideológicas são efeitos que devem se agravar com o poder de disseminação mais concentrado nas mãos dos usuários e cada vez menos nas páginas, afirma o texto do anúncio.

Por outro lado, "a Folha está usando a lógica do Facebook contra o próprio Facebook", como escreveu a gerente de projetos e responsável pela estratégia de distribuição da revista Piauí, Kellen Moraes. Ou seja, o jornal aposta no leitor como disseminador do seu conteúdo, hipótese confirmada por D'Ávila ao Farol Jornalismo.

Kellen foi certeira ao analisar a decisão sob o viés da audiência, por isso colo seu post aqui:
Há quem ache que a Folha de S.Paulo está abrindo mão da audiência. Isso não é verdade, pois existem dois tipos de tráfego nas redes sociais: o induzido (via fanpages) e o viral (via compartilhamentos dentro das matérias pelos próprios usuários). Com a mudança de algoritmo, o primeiro tipo caiu drasticamente. Ou seja, na prática, não faz diferença alimentar uma fanpage com o objetivo de clique - e isso é o próprio Facebook que nos diz. Resumo: neste ponto, "dá igual", como dizem os espanhois.

Por outro lado, a Folha acabou de passar por uma reforma digital, que investiu, justamente, na navegação pelo celular. Isso significa que o jornal, entre outras coisas, está facilitando o compartilhamento do seu conteúdo (já notaram quantos botões de share tem em uma matéria da Folha no mobile?) em redes sociais. E isso nos leva para onde? Para o segundo tipo de tráfego em redes sociais que citei acima: o viral.

Ao contrário do que possa parecer, a Folha está fortalecendo a parte social, mas por meio dos próprios leitores, que se encarregam da viralização. Os leitores já não veriam o conteúdo da Folha no Facebook por meio das fanpages de qualquer forma. Então a Folha está focando em experiência de usuário, em vez de dedicar tempo à gestão de um canal. Em última análise, seria correto dizer que a Folha está usando a lógica do Facebook contra o próprio Facebook.
Mas isso se refere ao tráfego gerado pela plataforma, que já vinha caindo, assim como as interações, conforme levantamento da própria Folha, também publicado ontem. Uma outra questão importante é olhar o Facebook pelo que ele tem (ou tinha) de melhor a oferecer: relacionamento. Perguntei a D'Ávila se, ao afastar-se do Facebook, a Folha não estaria abrindo mão de investir em relacionamento com seu público. Em sua resposta, o editor ressaltou a presença da Folha em outras redes sociais. A entrevista foi concedida por e-mail. Confira a íntegra:
Não é a primeira vez que o Facebook anuncia que vai privilegiar conteúdos de amigos àqueles produzidos por fan pages. Por que desta vez a Folha optou por parar de publicar na plataforma? O que mudou de junho de 2016 pra cá?

A mudança de algoritmo promovida pelo Facebook em janeiro último é mais radical no impacto que tem sobre o jornalismo profissional. Empresas produtoras de jornalismo profissional foram virtualmente banidas da interação com os usuários da rede.

Em termos de tráfego, está clara a justificativa da Folha, já que o acesso via Facebook vem caindo. Mas afastar-se do Facebook não significa abrir mão de investir em relacionamento com seu público? Que outras formas e em que canais a Folha vem trabalhando relacionamento com seus leitores?

Importante dizer que o leitor pode continuar a compartilhar conteúdo da Folha em sua página do Facebook. A Folha adotou a política de tentar diversificar sempre que possível seus principais motores de audiência, de maneira a evitar a dependência. Um dos principais motores hoje é a página do jornal, o que mostra o apelo da marca e a valorização dela pelo leitorado. O jornal segue presente em outras redes sociais, como Twitter, Instagram e Linkedin. Faz uso intenso de newsletters para distribuir seu conteúdo. Também é importante a audiência gerada por links compartilhados por meio do aplicativo Whatsapp.
 
A mudança é também uma aposta no potencial dos próprios leitores de viralizarem os conteúdos do jornal, levando-os do site para as redes sociais?

Sim, o leitor como difusor do conteúdo da Folha é parte importante de nossa estratégia. Na lógica do novo algoritmo do Facebook, aliás, o compartilhamento direto do leitor é o mais importante, por ser pessoal.
 
O anúncio de hoje critica o fenômeno das fake news, que encontram terreno fértil no Facebook para se disseminar. Por outro lado, como o próprio anúncio informa, os buscadores como Google são os maiores geradores de tráfego para o jornal e também têm sua responsabilidade na disseminação de informações falsas. Como a Folha avalia os esforços desses dois gigantes no combate às fake news?

Há muito a ser feito pelo duopólio no combate à proliferação das fake news. E há muito a ser feito por outros atores, também, inclusive nós, os produtores de jornalismo profissional. Uma das iniciativas mais importantes será a alfabetização digital, que ainda engatinha no Brasil.
Como toda entrevista por e-mail, tivemos algumas limitações na nossa conversa. Ainda me parece que a Folha perde bastante no quesito relacionamento. Por outro lado, acho que a atitude como pressão é válida, afinal, o Facebook está sempre dando as cartas do jogo sem a transparência que deveria ter como um ator que tem enorme responsabilidade sobre o que entrega. Por ora, seguimos acompanhando os efeitos dessas mudanças todas. A ver se outras grandes empresas jornalísticas vão seguir a Folha, se ela vai resistir ou voltará atrás, como a Globo fez em 2014, depois de retirar os links de todas suas publicações, lembram? Claro que o contexto era bem diferente, a audiência via Facebook era mínima na época, mas é bom lembrar que não é de hoje que a relação Mark e os veículos brasileiros se estremece. 
 

Um outro News Feed é possível?


No tópico acima eu falei que o melhor do Facebook é ou ERA seu poder de conectar as pessoas. Por que eu acho que pode ser que não seja mais? Primeiro por experiência própria, por estar de saco cheio dessa rede que uma vez foi divertida - e por ouvir de amigos que compartilham desta mesma sensação. Meu achismo é reforçado por dados da própria rede que revelam que as pessoas passam menos tempo na plataforma. Daí eu encontrei este relato na Wired, escrito por Louise Matsakis, ex-Motherboard, que fez alguns testes com seu News Feed. Não é nada revolucionário, mas vale por alguns insights - e dicas para quem quiser tornar a timeline menos desagradável.

Alguns recursos são mais conhecidos, como o AdBlock e o See First, primeira mudança que Louise fez na sua rede. Outros, menos, como o plugin para o Chrome Social Fixer (vocês conheciam? Eu não). Ele permite uma customização maior da timeline, como, por exemplo, bloquear opções que o Facebook oferece como aquela Pessoas que você conhece. Tem ainda uma função que vou chamar aqui de "babá de heavy user": se você carrega mais de 50 postagens, ele interrompe a navegação e exibe uma mensagem perguntando se você realmente quer continuar olhando o News Feed.

Louise também resolveu interagir o máximo possível com o conteúdo exibido pra ela, mas disse que a timeline pouco mudou: "Às vezes, parecia que o Facebook não processava - ou não era capaz de processar - o que eu estava lhe dizendo." 

O famoso e libertador Unfollow também foi bastante usado. Ao final de 10 dias, conta, seu News Feed estava sem anúncios, sem aquela barra lateral com as atualizações dos seus amigos e com muito menos posts de "pessoas chatas". Efeito colateral: o espaço deixado pelos amigos que parou de seguir foi preenchido por outros usuários com os quais ela não falava havia anos. 
 
"Imagino que este processo continue, até o dia em que eu decidir deixar de seguir quase todos."
O inferno são os outros, afinal de contas… 
 

Pô, Facebook


Sites de notícias falsas estão ganhando dinheiro no Instant Articles, recurso do Facebook. O Buzzfeed News encontrou 29 páginas que estão usando o canal para propagar informações mentirosas. Pelo menos 24 delas estão inscritas na plataforma Audience Network, em que editores podem incluir anúncios próprios ou usar a rede de publicidade do Facebook. Ou seja, Mark também ganha dinheiro com isso. Assim fica difícil te defender, amigo. 
 

Peraí! Tem gente produzindo para o Facebook


Nesta entrevista ao portal Comunique-se, a editora-chefe do BuzzFeed Brasil, Manuela Barem, conta por que produzem conteúdo exclusivo para a plataforma. A resposta, em duas palavras: relacionamento e audiência. Mas como?? Bueno, o BuzzFeed tem uma identidade bem diferente dos jornais tradicionais - e vai muito além de listas como 19 coisas que vão levar você e o seu TOC à loucura, pra quem ainda acha que não tem jornalismo de qualidade lá. Cheguei a essa entrevista enquanto terminava a newsletter, então não vou me alongar nos comentários. Leiam o texto, que traz também números interessantes sobre a redação brasileira.
 

E o Google, hein?


Já que falamos do Google e sua responsabilidade na disseminação de informações falsas e formação de bolhas, assim como o Facebook, recomendo dois textos do Quartz sobre promessas de esforços que a empresa vem fazendo para combater tais problemas. 

Aqui executivos da empresa comentaram, em Davos, sobre a possibilidade de criar recursos para sinalizar usuários sobre a confiabilidade de um conteúdo antes de serem compartilhados em redes como Facebook e Twitter. O texto cita problemas específicos, como a baixa eficácia de uma possível extensão para o browser, já que boa parte dos acessos às redes sociais vem por smartphones. Mas também aborda uma questão mais filosófica, como a complexidade em definir o que é verdade ou não.

Para concluir, a matéria apresenta a grande preocupação das empresas de tecnologia: evitar mais regulamentações, como a lei aprovada recentemente na Alemanha, que multa as plataformas sociais que não removerem discursos de ódio rapidamente.

O outro texto é sobre um anúncio da Google no dia 30 de janeiro em que a empresa diz que está remodelando a função Snippets da sua ferramenta de busca. Snippets são aquelas caixas de texto descritivas que trazem resultados bem específicas às suas perguntas, conforme ilustra este texto da Tec Mundo (em português). Nesta matéria, o Quartz explica que a busca reforça ideias pré-concebidas de quem faz a pesquisa. É o algoritmo do Google formando bolhas (lembram do vídeo de Eli Pariser sobre os filtros-bolha, né? Já falamos bastante sobre isso na NFJ também, como nesta edição). 

Os Snippets são também uma vitrine para notícias falsas, mais um motivo para mexer nesse recurso. Um trechinho da matéria do Quartz:
"De acordo com o sistema proposto da Google, se um usuário escreveu 'a mudança climática é real?', ele veria fragmentos com argumentos a favor e contra a existência de mudanças climáticas. O porta-voz da empresa concordou que isso é como o sistema teoricamente funcionaria, enfatizando que o Google não quer ser o árbitro da verdade, mas sim um fornecedor de conhecimento para ajudar a informar as decisões dos usuários. O Google disse que é muito cedo para concluir como ele realmente irá lidar com temas controversos, já que o recurso ainda não foi lançado."

E no Canadá, vaquinha e plataforma de relacionamento com assinantes


Com meta de arrecadar US$ 1 milhão para financiar sua expansão, o Discourse Media, criado há três anos, conseguiu metade do valor via vaquinha popular. Um dos objetivos é investir mais em conteúdo local e histórias de impacto social.

O que mais me chamou a atenção é a plataforma de assinantes, que está em fase beta. É um exemplo de iniciativa para investir em relacionamento com seu público - para além do Facebook -, ampliar conteúdo em colaboração com os leitores e diversificar as fontes de receita. Segundo matéria do Nieman Lab, traduzida pelo Poder360, a contribuição do grupo deve ir desde ideias para apoiar financeiramente o negócio até assistência na checagem de fatos. Erin Millar, a CEO e cofundadora do Discourse, espera atrair 30 mil membros nos próximos 18 meses, de 10 mil a 12 mil desses chegando em 2018.
"Nossos leitores serão capazes de identificar as questões com as quais eles se importam, quais tipos de vozes eles querem ouvir… expandir o debate público sobre questões de importância nacional. Baseados nos dados sobre o que estão consumindo, nós estaremos personalizando feeds para ajudar a quebrar silos, ao invés de apenas os alimentá-los com mais informações… Eles realmente querem se importar com o futuro do país e esses problemas complexos e ruins e eles sabem que nós temos de ouvir essas vozes para solucionar essas coisas –mas eles não sabem como encontrá-las."

Coisas rápidas


Ufa! Chega por hoje. Afinal, é sexta-feira de carnaval - e o baile por aqui é por conta do Santiago :)
Beijos, Marcela Donini
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