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NFJ#118 (18/11/2016)
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Moçada, moçada... hoje o começo da newsletter é o seguinte: se acomodem aí porque vou começar a ENFILEIRAR links sobre as polêmicas pós-Trump do nosso amigo Mark. Pois é, quem acompanha a NFJ sabe: bem que tentamos não falar sobre criticar o Facebook, MONOTEMATICAMENTE, semana após semana, mas fazer o quê se o Mark não se ajuda.

Bueno, antes de começar, só pra avisar que nesta edição estou praticamente sozinho no TIJOLO de texto que vocês lerão a seguir. A Marcela entra no finalzinho com dois links da realidade brasileira e, aqui ao lado, com o Coisas rápidas. Feito?

Ah, outro detalhe importante é que, especialmente hoje, a parte que me cabe da newsletter está toda interligada, apesar de separada por entretítulos. Então sugiro fortemente que vocês leiam a edição INTEIRA.

:D

 Preparados? Vamos ao índice.
Facebook na parede
Mas tá, não vou resistir em iniciar a CACHOEIRA de links com o trecho inicial deste texto da Emily Bell.

"A boa notícia para Zuckerberg é que, ao contrário da maioria das pessoas, ele pode fazer o mundo melhor quase imediatamente apenas assumindo mais responsabilidade pela política de publicação do Facebook. Reconhecendo que o Facebook pode e deve ser mais ativo em editar - sim, editar - sua própria plataforma, contratando pessoas de verdade para fazer isso, Zuckerberg irá promover o bem comum, assim como dar uma resposta ao crescente problema de como as pessoas percebem o Facebook."

s2 Emily Bell.

Bell publicou o texto no dia 11 criticando aquela velha posição do Facebook de "não somos uma empresa de mídia, somos uma empresa de tecnologia". Tecla que Mark insistiu em bater ao publicar este post no dia 13. "De todo o conteúdo do Facebook, mais de 99% do que as pessoas veem é autêntico. Apenas uma pequena quantidade é notícia falsa ou hoaxes" (boatos de internet), escreveu o dono da lojinha.

Pelo jeito, Mark não leu este estudo capitaneado por Craig Silverman, jornalista expoente em verificação digital e hoje editor do BuzzFeed News. Lá em outubro, Silverman e equipe analisaram páginas de mídias ativistas à direita e à esquerda do espectro ideológico e chegaram à conclusão que "os veículos menos precisos geraram alguns dos maiores números de compartilhamentos, reações e comentários no Facebook - mais do que as três maiores páginas da mídia mainstream analisadas para fins comparativos".

O estudo do BuzzFeed sugere que essas páginas de "extrema direita" estão entre "as forças que impulsionaram a eleição de Trump". Para Mark, o Facebook não é capaz de ter influenciado o resultado. Rick Webb discorda. Em um texto publicado na NewCo Shift, ele sugere que o Facebook tem de 1 a 2% de responsabilidade pelo que aconteceu no pleito. Esse número pode parecer pouco, mas não é, ele diz.

Um dos argumentos que ele lista é baseado na seguinte lógica: "este lance funciona porque funciona para todos nós apenas um pouquinho". Uma pessoa pode se dizer livre da influência de uma ação de marketing na hora de escolher entre dois produtos, mas no fundo, no fundo, a força da ação mudou, sim, a preferência dela. Para uma pessoa isso não faz muita diferença. A diferença aparece quando se pensa em escala. Foi a ação dessa força que vimos na eleição, disse Webb.

No mesmo post, Mark diz que ele também quer o fim das notícias falsas no Face. A questão é que acabar com notícias falsas pode se misturar com o objetivo de proporcionar a melhor experiência para o usuário fazer dinheiro, como mostrou esta matéria de John Herrman para o NYT, assunto da NFJ#106.

O coisa tá tão TOSCA que, diz o BuzzFeed, funcionários do Facebook nos EUA estão montando uma força-tarefa para cobrar do chefe um posicionamento mais realista sobre a disseminação de notícias falsas na plataforma. Segundo o texto, o grupo ainda é pequeno, mas muitos outros funcionários estão expressando sua insatisfação em conversas privadas. É MOTIM, Mark!

Este assunto foi destaque de hoje da boa newsletter Meio. Aproveitando o gancho, deem uma olhada nesta matéria resumo da polêmica publicada pelo Nexo.

Voltando, o problema não são apenas as notícias falsas. Rick Webb chama a atenção para "artigos de opinião" racistas, memes ofensivos e discursos de ódio que estão no coração da política do clique do Face. 

O perigo desse tipo de estratégia foi abordado por Patrick Martinchek neste outro texto publicado na NewCo Shift. Ele analisou 4 milhões de posts no Facebook sobre as eleições dos EUA e descobriu que Hillary foi mais citada por veículos de direita e Trump por veículos de esquerda. Ou seja, "ambos os candidatos estavam sob ataque". Este é apenas um dos achados da pesquisa, leia o texto inteiro, inclusive para entender e metodologia utilizada por Martinchek.

Ao final, Martinchek escreve o seguinte:

"[...] as mídias sociais microfocam o conteúdo antes de entregá-lo - dando exatamente o que você quer, deixando-o não exposto e desinformado em relação a diferentes pontos de vista. É fácil  pular num 'SIM, EU ACEITO' neste turbilhão de ódio em forma de cliques, mas hoje leva muito mais tempo, pensamento crítico e energia para achar, ouvir e absorver pontos de vista e conteúdos diferentes do que acreditamos."

Bora sair do Facebook! (Ou viva o RSS!)
Nada de novo no front, mas achei que este trecho era uma boa deixa para indicar a discussão que os amigos Caio Cesar e Felipe Menhem fazem na edição 115 do podcast Ainda Sem Nome. Caio chama a atenção para uma das principais consequências da postura "queremos proporcionar uma experiência bacana" assumida pelo Facebook: tirar das pessoas a capacidade de escolha.

Enquanto Felipe defende uma opinião mais na linha Emily Bell, ou seja, o Facebook deve assumir que é uma empresa de mídia e contratar editores, postura também defendida neste texto do Vox, Caio sugere que abandonemos a plataforma de Mark e exerçamos nossa liberdade utilizando tecnologias como o RSS (é nóis, Caio!). A medida extrema seria uma resposta à impossibilidade de o Facebook mudar sua natureza, segundo ele. Mark não vai dar o braço a torcer.

Essa inflexibilidade, aliás, será a causa da ruína do império de Mark, prevê Caio. Quando isso acontecerá? Difícil dizer. Pode ser daqui um, cinco ou dez anos. O fato é que, como escreveu Emily Bell, há uma percepção crescente de que o Facebook não é lá essas coisas. Por enquanto, ela está reduzida à nossa bolha, mas talvez chegue logo à massa. Aí já viu.

Receita para sair da bolha
Falando em bolha, este texto de Asha Dornfest começa falando nela, A BOLHA. Depois, dá umas boas dicas para sair dela. Nada que a gente não saiba, na real, mas acho que vale a pena sublinhar. Em tópicos:
  • Pague por jornalismo de qualidade;
  • Pare de se informar pelo Facebook;
  • Assine um jornal local;
  • Assine um jornal nacional;
  • Leia pelo menos uma fonte de notícias que não tenha o seu posicionamento político;
  • Leia uma fonte de notícias internacionais;
  • Aprenda a identificar notícias falsas;
  • Conecte-se pessoalmente com sua comunidade local;
  • Comprometa-se diariamente com a gentileza.
Temos uma boa lista de resoluções para 2017, hein?

Antes de seguirmos, gostaria de mostrar um trechinho do tópico sobre assinar um jornal local. Leiam:

"Eu não me importo em quão ruim o seu jornal local é, assine. Não culpe jornalistas atarefados pelo fato de que o modelo de negócio dos jornais onde eles trabalham está falido. Esses repórteres vão cobrir o legislativo municipal, reuniões de comunidades escolares e o parlamento estadual, e vão contar para você o que viram. Sem essa cobertura, alguns ovos podres do seu governo local podem evoluir, piorando o problema da corrupção que você provavelmente não aguenta mais. Menos mídia fiscalizando os poderes = mais corrupção."
 
Leiam os outros tópicos aqui. São curtinhos como esse.

Nós somos o Rust Belt
O bom é que talvez isso já esteja acontecendo. O NYT diz que suas assinaturas aumentaram depois da eleição de Trump. E é bom mesmo que aconteça, porque, como sugere Bobbie Johnson neste texto, nós também fazemos parte do Rust Belt, ou Cinturão da Ferrugem, em bom português, denominação para a região dos Estados Unidos que mais vem sofrendo com a diminuição dos empregos na indústria. 

Nós, no caso, são os jornalistas norte-americanos. Mas como somos uma classe trabalhadora mundialmente f$*&#a e mal paga, podemos aplicar o rótulo à nossa realidade para fins de reflexão. Johnson mostra números da diminuição da força de trabalho nas redações dos EUA ao longo dos últimos dez, quinze anos, e compara a profissão com o operariado eleitor de Trump ("predominantemente branco, atacado pelas forças da globalização, deixado para trás pela tecnologia") para tentar responder à questão que todos vêm fazendo nos últimos dias:

Como a mídia não previu o fenômeno Trump?

Fomos deixados para trás pela tecnologia, né, Mark?

Fala, chefe dos publishers
Não é de hoje que Emily Bell alerta sobre isso.

"Ter nossos padrões de liberdade de discurso, nossas ferramentas de reportagem e nossos princípios de publicação estabelecidos por enigmáticas companhias de software é um assunto a ser definido não apenas pelo jornalismo, mas por toda a sociedade.

Não vou argumentar que isso é uma tendência reversível. Não é. Mas vou argumentar que o jornalismo tem um papel importante em construir e desenvolver novas tecnologias (…)."


O trecho acima é de um discurso que ela fez no Reuters Institute for the Study of Journalism em novembro 2014. Dois anos atrás, gurizada. Ele foi tema de uma newsletter inteira na época. Em 2015 teve outro.

Recuperei a fala de Bell para introduzir esta aspa aqui:

“Precisamos rever nossas alianças”.

Quem disse isso foi Vincent Peyrègne, CEO da WAN-IFRA, a associação mundial de jornais, durante uma conferência realizada na Faculdade de Comunicação Social da PUCRS (Famecos), ontem à noite. 

O meu colega Marcelo Fontoura assistiu e gentilmente ofereceu um resumo da fala de  Peyrègne. Confiram:

"Vincent Peyrègne, CEO da WAN-IFRA, fez uma apurada sistematização de uma série de discussões que compõem o cenário contemporâneo do jornalismo. Representando publishers de mais de 100 países, marcou sua palestra pelo questionamento da posição de destaque de players de tecnologia no mercado. 'As plataformas parecem relutantes em aceitar o papel de empresas de notícias. Mas, cada vez mais, precisam', afirmou, com um aceno ao Facebook e ao cenário pós-eleições americanas. 'Precisamos rever nossas alianças', argumentou.

Peyrégne, que preside a WAN desde 2012, questionou também o quanto, nesta nova ‘era de plataformas’, news publishers serão relegados a uma posição de meros produtores de conteúdo, em vez de protagonistas. Sobre o futuro das notícias, defendeu que a realidade envolverá cada vez mais personalização, com os dados da audiência sendo a estrutura básica, algo próximo do alegado por Jeff Jarvis.

Finalmente, a partir desta necessidade, colocou que o papel do jornalista será composto por mais habilidades, envolvendo formar comunidades, pensar em soluções e criar experiências imersivas. Sem dar uma resposta concreta, concluiu que precisamos encontrar um substituto para o modelo da publicidade, mas que isto passa por ter uma visão da inovação mais centrada no futuro, sem tanta relutância em abandonar o passado."


Quem quiser, pode assistir à conferência na íntegra

From: Fact-checking sites 
To: Dear Mark
No mesmo dia que o representante dos jornais sugeriu rever as alianças com as empresas de tecnologia, sites de checagem de notícias de todo o mundo assinaram uma carta em conjunto endereçada a Mark Zuckerberg. No documento, as iniciativas de fact-checking pedem a "adoção de critérios claros para identificar notícias falsas na rede social", nas palavras deste post do Aos Fatos, que, junto com a Agência Lupa e a Truco, da Pública, representam o Brasil.

Um trecho:

"Acreditamos que o Facebook deveria iniciar uma conversa aberta a respeito dos princípios que sustentam um ambiente de distribuição de notícias corretas. A rede internacional de checadores está disposta a participar desse diálogo.

Muitas das nossas organizações já oferecem treinamento em checagem de fatos a veículos, a universidades e ao público em geral. Ficaríamos felizes em nos comprometer com o sr. de modo a indicar como seus editores poderiam encontrar e desmontar informações falsas."


Ih, moçada, será que em vez de querer dar cursos para jornalistas, não estaria  na hora de Mark se matricular na J-School?

Jornalismo Upside Down
Brincadeiras à parte, o que gostaria de sublinhar agora é a UNIÃO de diversos veículos diferentes, algo ainda incomum em uma cultura jornalística tão acostumada à concorrência acirrada. Aliás, é no trabalho conjunto que aposta Ben Smith neste texto publicado na Columbia Journalism Review. Jornalismo como um esforço em comum para que as "plataformas reajam rápido a um escrutínio focado", escreveu ele. 

Mas o mais legal do texto é a comparação da cobertura jornalística das eleições norte-americanas com a série Stranger Things. Enquanto muitos jornalistas faziam um ótimo trabalho revelando fatos a respeito de Donald Trump, outros aproveitavam o personagem Trump para gerar cliques, como se esse fosse o jornalismo praticado no Upside Down, o mundo secreto da série do Netflix. 

Em qual mundo vocês querem viver?


Agora, a Marcela.

POSJOR/UFSC lança série de entrevistas
O Observatório da Ética Jornalística, do Departamento Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (POSJOR) da Universidade Federal de Santa Catarina, publicou a primeira de uma série de entrevistas com pesquisadores da comunicação e do jornalismo. A estreia foi com Danilo Rothberg, professor da Unesp, em Bauru, que fala sobre comunicação pública e ética e chama a atenção para a necessidade de "orientação editorial para a pluralidade". Vai um trechinho sobre o que ele considera o grande dilema ético do jornalismo hoje:

"Provavelmente, o dilema de reconhecer que existe uma diversidade de perspectivas a serem abrangidas em uma dada pauta e, ao mesmo tempo, reconhecer que não há tempo ou recursos disponíveis para desenvolver as abordagens que envolvam essa diversidade de perspectivas importantes para a matéria.

A pesquisa em jornalismo pode contribuir justamente desnudando e trazendo à tona episódios de coberturas relevantes que não apresentaram equilíbrio, pluralidade ou contexto necessário. Ao mesmo tempo, tem a possibilidade de indicar formas de aperfeiçoamento que poderiam gerar a abrangência adequada para cumprir aqueles buracos ou insuficiências."

Entre os próximos temas, os entrevistados falarão sobre ensino de jornalismo, ética hacker, gênero e qualidade no jornalismo. Acompanharemos!

Mais audiência, menos faturamento

Na newsletter passada, falamos sobre como o paywall alavancou a audiência digital nas redações brasileiras. Nesta semana, o Knight Center publicou uma matéria mais focada nos custos e receitas dos dois produtos, impresso e digital. Apesar da alta na audiência total, somando digital e impresso, o faturamento sofre queda na publicidade, principal fonte de receita tradicionalmente. A aposta é virar esse jogo e ganhar mais grana pela circulação digital, feito alcançado pelo New York Times em 2012 - além de diversificar receitas, como no caso da Folha de S. Paulo, que conta com a sua editora e o Datafolha.
Moreno assumindo para finalizar a NFJ#118.

Bueno, era isso, gurizada. Espero que tenha feito sentido pra vocês. Agora vou ali trabalhar mais um pouquinho e depois me jogar num final de semana de ATP Finals e braçadas nas águas do glorioso Lami

Coisa linda.
Bom final de semana e até sexta que vem.
Moreno Osório e Marcela Donini
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Academia + mercado: por que pesquisas aplicadas em Comunicação são úteis e necessárias, por Taís Seibt.
Coisas rápidas

Críticas à entrevista do presidente Michel Temer no Roda Viva: aqui e aqui.

E aqui, algumas checagens do que disse o presidente na TV Cultura.

Pessoal da Columbia University estará no Rio, no dia 23/11, para divulgar seus cursos e programas especialização. Mais informações pelo email esotomayor@columbia.edu e confirmação de presença aqui. Em SP, o encontro ocorreu ontem.


Vocês devem ter visto, mas fica o registro: a palavra do ano eleita pelo dicionário Oxford é "pós-verdade".
A NFJ é gratuita e gostaríamos que continuasse assim, mas sua produção dá bastante trabalho. 
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