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Boletim do Mandato Chico Alencar - #Boletim 735
Rio, 20 de dezembro de 2018
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Somos o que fazemos
 
Minha geração, na resistência à ditadura implantada pelo golpe civil-militar de 1964, aprendeu a valorizar o Parlamento: ele, mesmo sendo um escritório dos interesses dominantes, podia reverberar também o clamor dos “de baixo”.

Foram 16 anos na Câmara dos Deputados, marcados por muitas derrotas e algumas vitórias. Quatro mandatos de grande aprendizado, que me autorizam a fazer alguns alertas, às vésperas do novo e preocupante arranjo político nacional. Há um futuro carregado do que já passou.

Representar não é substituir! Mandato político eletivo não é pura delegação, e nenhuma representação é absoluta. Democracia participativa, de alta intensidade, exige permanente busca pela “presentação”, a começar pelo controle popular dos representantes.

Mandato não é construção individual. É fato que a farta assessoria por vezes é mais dedicada às Excelências (herança da cultura nobiliárquica) do que à excelência da função pública. Mas trabalho de equipe é imprescindível na ação voltada para o bem comum. Como repetia nossa saudosa vereadora Marielle Franco, “eu sou porque nós somos”.

Os partidos estão desacreditados. Só que todo mandato é partidário, realizado em bancadas. As legendas, com raras exceções, se tornaram ajuntamentos de interesses escusos, negociatas, instrumentos para o carreirismo. Iniciativas legislativas e ações de governo são compradas por grandes corporações. Aí estão as bancadas das empreiteiras, do boi, da bala, da Bíblia (fundamentalista), do banco. Com essa degradação, a população percebeu a inutilidade das siglas na melhoria de sua vida cotidiana.

O clientelismo é porta para a corrupção. Mandato republicano existe para legislar, fiscalizar os governos e estimular a organização popular. Em vez de fidelizar currais eleitorais para sua própria reprodução, os mandatos têm que contribuir para o ativismo cidadão autônomo. À cultura dos direitos é inerente a responsabilidade social, inimiga da postura egoísta e da indiferença em relação ao outro.

O individualismo é o tijolo do patrimonialismo. Mandato público, em qualquer instância de poder, precisa ter compromisso com a implementação de políticas que ajudem a superar nossa maior chaga: a desigualdade social. Isso pressupõe educação pública democrática de qualidade, saúde para todos, segurança, trabalho, teto, terra. E cuidado ambiental, mobilidade urbana, democratização da cultura e da informação. Objetivos a serem buscados sempre com ética e transparência.

Recomendo a quem ingresse na vida pública que tome uma vacina tríplice: contra o corporativismo, que reproduz uma casta onde prevalecem o cinismo e a hipocrisia; contra a soberba, filha da cultura autoritária e irmã do histórico mandonismo; contra a acomodação, induzida pela tentação do aburguesamento que o cotidiano sedutor nos palácios traz. Impõe-se só aceitar o que for necessário ao exercício do mandato, e publicamente defensável. É imperativo prestar contas nas praças, estar presente na vida diária do povo e nas lutas sociais, em suas inéditas e questionadoras formas. Ali onde estão o lamento e a esperança humana, deve estar a pessoa pública!

Há muitas maneiras de servir à população. Não aceitei a previdência parlamentar e retorno à minha vida de educador. Paulo apóstolo deixou, em carta escrita da prisão em Roma, aproximando-se seu martírio, uma frase valiosa para crentes e não crentes: “combati o bom combate, terminou minha jornada, guardei a fé” (2 Tim 4,7).

Nossa jornada ainda não terminou, mas acredito que, entre erros e acertos, travamos as boas batalhas e mantivemos as convicções, as ideias e causas como fundamento da nossa atuação. O plural não é majestático: sempre apostamos na construção coletiva. Estreitos nós. Gratidão.

Chico Alencar é deputado federal (PSOL-RJ)

Publicado originalmente aqui.
A despedida do historiador
Por Bernardo Mello Franco
 
Há nove dias, o deputado Chico Alencar subiu num caixote de madeira para conversar com eleitores no centro do Rio. De camiseta e sandálias de couro, comentou o noticiário político e distribuiu um folheto sobre o trabalho em Brasília. Foi a última vez que ele cumpriu o ritual de todas as sextas-feiras, dia em que presta contas do mandato em praça pública.

Depois de 16 anos, Chico vai deixar o Congresso. O historiador abriu mão de uma reeleição segura para concorrer ao Senado como azarão. Recebeu 1,2 milhão de votos, mas ficou em quinto lugar. A derrota deu início a uma fase de reflexões. Na quarta-feira, ele fez o discurso de despedida. Ao descer da tribuna, produziu uma cena inusitada: petistas e bolsonaristas se uniram na mesma salva de palmas.

“Senti uma emoção diferente, de missão cumprida e, para minha surpresa, reconhecida”, conta. “Mediar é diferente de fazer média e de conciliar. Talvez venha daí o reconhecimento dos conservadores: sempre tento afirmar posições sem agredir. As ideias devem brigar, não as pessoas”, defende.

Para Chico, o Parlamento deveria ser o lugar de “civilizar o debate e dar racionalidade às contradições”. Ele crê que esses princípios ficarão ainda mais fora de moda na próxima legislatura. “O clima deve se acirrar. A revolta com a política produziu um voto raivoso, que elegeu governantes e parlamentares truculentos. Serão tempos piores”, prevê.

O deputado chegou a Brasília em 2003, eleito pelo PT. Viveu a euforia com a posse de Lula e a decepção com o mensalão. No dia em que o marqueteiro Duda Mendonça admitiu ter recebido dinheiro de caixa dois, foi às lágrimas no plenário. Saiu do partido e ajudou a fundar o PSOL.

“A esquerda ganhou pecha de corrupta, ficou identificada com a podridão do sistema. É uma tragédia, mas caímos na vala comum”, reconhece.

Na contramão dos petistas, Chico defende uma autocrítica rigorosa para sair do buraco. “Não dá para esconder a enorme derrota histórica que nós sofremos. A extrema direita conseguiu canalizar a indignação da sociedade”.

Ele também diz que o PSOL precisa repensar a ênfase em pautas identitárias e temas que assustam o eleitor não engajado. “Outro dia, eu estava numa passeata e a turma começou a cantar: ‘Eu quero o fim da Polícia Militar’. Aí um PM veio falar comigo: ‘Seu Chico, vocês querem que a gente fique desempregado?’. Às vezes o slogan reduz o alcance do que se propõe”, observa.

O deputado se surpreendeu com a vitória de Jair Bolsonaro, que considera “raso e despreparado”. “Há três anos, eu diria que era mais fácil o Tiririca se eleger presidente”, admite. Ele prevê tempos difíceis e teme uma escalada autoritária. “A esquerda perdeu a disputa de ideias na sociedade. Mas nada é definitivo, a história dá muitas voltas”, lembra.

Aos 69 anos, Chico planeja fazer doutorado e voltar a dar aulas na UFRJ. “Preciso trabalhar para sobreviver. Deputado não é profissão”, afirma o historiador, que não aderiu ao generoso plano de previdência parlamentar. Ele diz que não quer mais se candidatar a cargos públicos. “Tinha seis ternos, já doei três. Espero não ter que usar os outros, prefiro andar de bermuda”, brinca. “Mas não pretendo me aposentar para jogar sueca na praça!”.

Publicado originalmente aqui.
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Mandato Chico Alencar
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